domingo, 5 de janeiro de 2014

Última moeda

No primeiro dia existia uma parede invisível, mas não imaginária, nos separando. Tentei desesperadamente transpô-la, bati com toda minha força, gritei inutilmente, mas nada adiantou. Ela me olhava serena, pedia que eu me acalma-se, entretanto isso era impossível, ela estava ali na minha frente e eu sequer podia tocá-la. Gritei, continuei a esmurrar aquele muro até minhas mãos sangrarem. E ela continuou ali parada com o seu olhar sereno pedindo para que eu me acalma-se. No segundo dia ela apareceu de branco, era festa do mar, todos jogavam suas moedas, suas rosas brancas, não existiam mais barreiras. Ela chegou perto, pediu para que eu ficasse bem, me deu uma moeda e se foi. Prontamente eu joguei minha moeda no mar e fiz um pedido: Volta! O mar esbravejou, Iemanjá entendera, mas não tinha como conceder, era grande demais até para ela. Assim como a minha moeda, ela se fora, afundou pouco a pouco e desde então eu nunca mais joguei uma moeda ao mar.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Respirei fundo muitas vezes tentando procurar uma saída, mas sequer consegui me mexer. Tudo ainda está muito confuso e a única coisa que eu tenho certeza é que absolutamente tudo mudou. Queria acordar disso que eventualmente chamamos de pesadelo e percebo que isso é a minha realidade. Com os meus olhos míopes e cansados só consigo enxergar linhas turvas e muito pouco a fazer. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Abri mão do verde, ele acabou por não ajudar em nada... Simbolismos, simbolismos. Acabei por encarar o preto de frente bem nos olhos e nas unhas. Quem quiser que diga que é luto. Talvez seja... Por que não? Um luto bem servido, com enterro, missa, lágrimas e esquecimento (esse pode até tardar, mas nunca falta). Tudo como de praxe, sem muita cerimônia, só aquela certeza pura e simples de que acabou. Como tudo acaba, as plantas, os bichos, as pessoas e os sentimentos, cada um ao seu modo. É verdade, todos acabam, ou se transformam. Talvez seja isso que nos mantenha vivos, a certeza de que as coisas se transformam, sem saber exatamente em quê, nem quando, nem onde. E elas vão mudando, tornando-se ora melhores, ora piores e se alternando mutuamente.
Estamos todos na beira de alguma coisa, não o abismo clichê, mas todo mundo está na beirada, buscando algo novo, um sentimento novo, uma pessoa nova. Eu gosto das coisas velhas, sempre gostei, sempre fui meio velhinha, acordando cedo, sentindo cheirinho de café no fogo, cumprindo sempre os mesmos hábitos, saudáveis ou não, mas sempre os mesmos. Talvez por gostar tanto de manter os velhos hábitos é que as coisas sejam tão inconstantes pra mim e paradoxalmente eu seja tão volúvel. Mudando de ares, pessoas e sentimentos como quem troca a cor das unhas. Ontem verde-esperança, hoje preto-luto e amanhã, quem sabe, acho alguma mais feliz, um pink ou um anil. 

sexta-feira, 7 de outubro de 2011


Arrumei a casa, lavei a louça bati um bolo. Preenchi o meu tempo e a dor não passou. Percebi que o que faltava preencher era espaço e não tempo.  Esse é mais complicado, mais de-li-ca-do como uma boneca de porcelana, que, ao se quebrar, por mais que se emende, sempre ficarão cicatrizes. Queria uma cicatriz agora, queria um sentido, algo que valesse a pena, algo no que acreditar, mas tudo perdeu o sentido, se sentido houve algum dia. Continuar se tornou uma palavra vazia e por mais sinônimos que eu invente não consigo trazê-la de volta.
Vou falando, repetindo, criando vícios, lavo, passo, limpo, faço as unhas o cabelo e tudo continua igual. Tento ler um livro, assistir a um filme, rir alto de qualquer coisa, mas tudo continua igual. Os truques antigos que antes eram tão eficazes já não têm significado nenhum. Os versos que antes tanto me distraiam, hoje são palavras cada vez mais vazias. Pintei as unhas de verde (esperança, pensei), vai ver representa alguma coisa. E no meio do turbilhão também conhecido como o olho do furacão, tudo para. A vida para e, no silêncio, tento escutar a lembrança de quem eu fui um dia. Ideais, causas, motivos para lutar por algo maior, mas o sentido se perdeu com o tempo e, pragmática e positiva continuo andando, com as unhas pintadas de verde na esperança de ter esperança de novo algum dia, se é que algum dia houve. 

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Rubra? Porque não?!
Assim, sem querer, te tornei especial, sim, eu te tornei. Pois, somos nós que tornamos o outro. Vemos no outro aquilo que queremos ver. Te vi assim, especial. Quis voltar atrás, tornar as coisas menos belas e menos fortes, mas já era tarde. Aquilo, que antes parecia indecifrável, tomou tanto espaço que se tornou inaprisionável e, saindo de um extremo a outro, me atordoou. Parei no meio da estrada, sem bússola, sem mapa, sem norte... Apenas com um reflexo do que eu imagino que seja isso, que não tem nome, mas ocupa tanto espaço que, em meio ao sentido absoluto, não faz sentido algum. Imersa nesse caleidoscópio de informações desencontradas, vejo aquele papel amarelado e me lembro das cartas que pensei em escrever. Mas não se escreve mais cartas... Mesmo assim, olhando para aquele papel amarelado, lembro daquele pôr-do-sol, em algum lugar lá atrás ou lá na frente, não sei ao certo, mas aquele pôr-do-sol onde os olhos voltaram a ver e, quem sabe, tudo voltaria a ser belo novamente, ou voltará... Mas não dá mais tempo e tenho novamente que esperar, esperar por você, por mim, pelo encontro ou, simplesmente, pela espera.