sexta-feira, 22 de abril de 2011

Penteadeira, batom púrpura, luz flamejante e a incrível sensação de se ver.
Enxergar o passado, o presente e rememorar cada segundo de existência numa fração de tempo menor que o pensamento.
Passar o batom, o pó, colocar a ruga falsa e a falsidade do corpo e, a todo o momento, ter consciência plena de estar apenas representando.
Ela se via e se ouvia, antes mesmo do público notar a sua existência. Luz rubra, quarto escuro, pele envelhecida, mãos macias e enrugadas pelo tempo que, pouco a pouco foi deixando de passar.
Suor? Lágrimas? Desejo?
Apenas a força de um indivíduo que luta, luta e continua se vendo, correndo entre a infância e a juventude. Faces da mesma moeda?
Luz incandescente se acende, porta se abre e ela continua esperando a entrada do infinito, do vazio. Luz se apaga, novamente ela se olha no espelho e diagnostica sua doença sangrenta, inalcançável e repetidamente tediosa. Havia envelhecido. 
Levanta bruscamente, dança um tango com um parceiro imaginário, finaliza sua grandiosa performance, agradece ao público.
Ausenta-se.
O palco livre representa aquilo que ela sempre desejou ser: apenas uma luz no meio do caminho que leva a lugar nenhum.
Sombras entrecortadas de luxo e uma imensa tela de cinema que aos poucos vai se apagando.

Um comentário:

  1. "Até que ela partiu. Ela partiu pra bem longe. Tão distante o bastante pra suportar. Ela partiu. Ela partiu. Ao meio." (Jay Vaquer)

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