Silenciosamente um abismo foi crescendo entre nós, um amor que pouco a pouco foi se movendo, se transformando, fluindo para algo ora maior, ora menor. Um amor tão grande que nos engoliu e pensamos ser suficiente. Não foi…Te amo, parece vazio, parece pequeno, mas te amo ao ponto de não saber como me achar sem você e esse é o problema, me perdi, te perdi… O tempo muda tudo e acabou mudando a gente. Tem uma paz aqui agora, que eu não sei lidar, sou dos vendavais, dos furacões, das tormentas. Me sinto te traindo, me traindo. Te quero bem, mas não te quero mais. Não do jeito que te quis um dia, te quero para sempre, mas mudou, me silenciou. Preciso me achar de novo, saber quem sou, achar os meus vendavais, meus furacões, até que a calmaria se faça necessária de novo
sexta-feira, 25 de março de 2016
quarta-feira, 2 de março de 2016
Abri os olhos,
não para ver, abri os olhos para continuar sentindo, abri os olhos com a
esperança de recobrar a sanidade, a racionalidade, a lucidez. Abri os olhos,
para não abrir o peito, ledo engano, este foi aberto sem que eu percebesse.
Quando percebi que não tinha volta, quis fechá-lo novamente. Quis segurar
aquele fragmento de momento, aquela sensação. Um momento dilatado, recortado,
onde nada mais importava. O presente, um presente. Temos o estranho hábito de querer
que as coisas durem, eu só quero que elas sejam. E se elas serão simplesmente
por aquele instante... quem se importa? O instante é tudo que temos. Enquanto
ele dura, o resto para. E vai parando... vai parando... vai parando... até que
seja esquecido, perdido entre fragmentos de passado e futuro que se sobrepõe
mutuamente, mas que só voltarão a fazer sentido quando o instante, aquele
pequenininho, que as vezes nem percebemos, acabar.
Fico assim,
respirando.... Não foi a última gota que fez transbordar, mas o conjunto de todas
elas, mas quem disse que transbordar é ruim? Sigo cheia, meio lua, meio mar,
esperando quem sabe minguar, transbordar, desaguar. Sigo aguada, sigo o fluxo,
o caminho contrário, sigo querendo e tentando. E nesse momento, percebo o
quanto a confusão se fez presente, se fez latente. Ainda sem um norte, mas no
fundo disso tudo, eu só quero me perder. Em meio a minha caótica rotina, me
perco entre os prazos, entre os pratos, entre tudo aquilo que foi sendo deixado
por fazer, entre o ontem e o amanhã, pois para hoje eu só quero mais um copo d’água.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
Nostálgica, reticente, agônica… Vários sentimentos que acabam por se misturar numa batida que só me grita: Vai viver!
É isso… Vai viver!
Carnavalesca, hébria, volúvel, numa ânsia por encontrar um caminho, talvez não o melhor, mas com certeza não o maior.Querendo um pouco de tudo que é bom, por que no fim, é o que fica, é o que importa. Seguindo esse turbilhão, volto as cores, talvez elas ajudem, quem sabe aquele anil nas unhas não dê uma força?! Invisto nele com aquela certeza que só os tolos e os apaixonados tem, aquela certeza de que o que importa é o agora, que o melhor sentimento é o que é real. Mas o real é só mais um embuste. Quero voltar e te dizer tudo que está entalado na minha garganta seca, que não umedece nem com vodka (desculpa o trocadilho Caio…), quero ter coragem para arrancar cada uma das minhas máscaras para me despir de mim e quem sabe poder me mostrar assim, não pura, não única, não especial, mas assim, tão eu quanto se pode ser…
É isso… Vai viver!
Carnavalesca, hébria, volúvel, numa ânsia por encontrar um caminho, talvez não o melhor, mas com certeza não o maior.Querendo um pouco de tudo que é bom, por que no fim, é o que fica, é o que importa. Seguindo esse turbilhão, volto as cores, talvez elas ajudem, quem sabe aquele anil nas unhas não dê uma força?! Invisto nele com aquela certeza que só os tolos e os apaixonados tem, aquela certeza de que o que importa é o agora, que o melhor sentimento é o que é real. Mas o real é só mais um embuste. Quero voltar e te dizer tudo que está entalado na minha garganta seca, que não umedece nem com vodka (desculpa o trocadilho Caio…), quero ter coragem para arrancar cada uma das minhas máscaras para me despir de mim e quem sabe poder me mostrar assim, não pura, não única, não especial, mas assim, tão eu quanto se pode ser…
domingo, 27 de julho de 2014
Geada
Hoje geou, por dentro e por fora. Não
foi a primeira vez, mas sinto que pode ser a última. Quero que seja a última...
Tudo tão sem significado para alguns,
nunca entenderam o que ficava subentendido, às vezes pagamos pelo que deixamos
de dizer, mas não deixamos de sentir...
Sentir... Por vezes tão inesperado...
Sempre quis pouco, mas um pouco de
verdade, um pouco inteiro, sabe aquele meio copo de whisky, só que whisky de
primeira? Whisky de primeira não dá ressaca. Acho que é isso, estou com uma
ressaca mal curada de meio copo de whisky vagabundo.
quarta-feira, 18 de junho de 2014
34...
É, hoje seriam 34...
Mas não te permitiram, não nos permitiram.
Sempre acabam levando uma parte boa da gente...
Hoje queria que fosse só mais uma comemoração, talvez um bolo, uma festa, uma farra, talvez a gente nem se visse... Mas estar lá faz toda a diferença.
É meu irmão, não te permitiram ser a coisa boa que você era, não te permitiram muita coisa... Não sei como poderia ter sido. Nos nossos “e se” mágicos, o céu poderia ser verde e você poderia estar por aqui agora. Sinto de uma forma esquisita que alguma coisas mudam a gente para sempre, racham a gente de tal forma que é como se nem doesse... Posso culpar o estado, um deus qualquer, a falta de justiça desse país, mas na real, nada disso vai mudar o fato de você não ter podido ver e viver uma série de coisas boas e ruins que a vida poderia ter te oferecido.
A gente sempre acha que poderia ter feito alguma coisa, ter feito mais, mas isso tudo só torna a coisa toda pior.
Portanto, esse desabafo só serve para mim, para minhas culpas, meus ressentimentos, minha sensação de impotência. Nesses sete anos nós simplesmente continuamos. Nada foi feito, nem justiça, nem vingança. Talvez tenhamos tendado esquecer lembrando. E se lembrar faz alguma diferença, continuarei lembrando... Agora com a minha bússola, meu mapa e a certeza que só temos uma vaga ilusão de tudo isso.
Mas não te permitiram, não nos permitiram.
Sempre acabam levando uma parte boa da gente...
Hoje queria que fosse só mais uma comemoração, talvez um bolo, uma festa, uma farra, talvez a gente nem se visse... Mas estar lá faz toda a diferença.
É meu irmão, não te permitiram ser a coisa boa que você era, não te permitiram muita coisa... Não sei como poderia ter sido. Nos nossos “e se” mágicos, o céu poderia ser verde e você poderia estar por aqui agora. Sinto de uma forma esquisita que alguma coisas mudam a gente para sempre, racham a gente de tal forma que é como se nem doesse... Posso culpar o estado, um deus qualquer, a falta de justiça desse país, mas na real, nada disso vai mudar o fato de você não ter podido ver e viver uma série de coisas boas e ruins que a vida poderia ter te oferecido.
A gente sempre acha que poderia ter feito alguma coisa, ter feito mais, mas isso tudo só torna a coisa toda pior.
Portanto, esse desabafo só serve para mim, para minhas culpas, meus ressentimentos, minha sensação de impotência. Nesses sete anos nós simplesmente continuamos. Nada foi feito, nem justiça, nem vingança. Talvez tenhamos tendado esquecer lembrando. E se lembrar faz alguma diferença, continuarei lembrando... Agora com a minha bússola, meu mapa e a certeza que só temos uma vaga ilusão de tudo isso.
domingo, 9 de março de 2014
Na sacada
Ando sofrendo de lonjuras.
Não que seja novidade, nem especial.
Sei que meu problema é absolutamente comum.
Já vi muitos se curarem e outros tantos morrerem.
Assim a vida segue.
O que me falta é um gosto de mar, um gosto de amar.
O querer perto é sempre o pior inimigo, ele te saliva e te faz palpitar enquanto te lembra do que é impossível ter.
Não, não estamos falando de posse, ter não significa tirar do outro, excluir possibilidades. Aqui, ter significa somar, em todas as suas mais diversas formas.
Em meio a esses enjoos de além mar, ando procurando em minhas garrafas vazias, um pergaminho, um mapa, uma bússola, uma vontade. Ando procurando você. Ando tentando encontrar aquela sombra de menino que foi perdida há muito, numa janela levada por um Peter Pan qualquer.
Ando procurando aquela sombra que deve estar voando por aí até hoje, sem encontrar pouso, sem encontrar paz, sem encontrar aquela minha mão que te esperou por tanto tempo naquela sacada infinita.
E esperando ao longe, esperando de longe, nos perdemos mais uma vez entre as sombras da janela que começaram a voar.
quarta-feira, 5 de março de 2014
Hiato
Coloquei um Blues alto, não surtiu efeito. Lembrei que Pink Floyd era uma das suas preferidas. Coloquei no máximo, esperando, quem
sabe, silenciar meus infinitos pensamentos que não cansavam de gritar.
É, essa noite não vai ser fácil nem vai
acabar rápido. Quase sinto a sua presença, o que só torna tudo ainda mais difícil. Quero muito deixar você ir... Quero te deixar em paz...
Quero ter certeza que fiz tudo possível e
então, te deixar. Mas como?
Essas certezas que não temos, esses "e
se" tornam esse poço muito mais profundo.
Não tenho ilusões de um retorno, sei que é
humanamente impossível, só queria um adeus digno.
Não é isso que todos nós
queremos no fim das contas?
Sempre
pensei que de alguma forma foi o melhor para você, mas na verdade é
simplesmente mais fácil para mim pensar assim.
Isso não é o melhor para
ninguém.
Queria
poder fazer algo...
Porque
as pessoas são tão podres?
E a
essa altura não sei mais se isso é sobre mim ou sobre você, mas com certeza não
é sobre nós.
Algumas
coisas são tão frágeis que um arranhão pode ser eterno e, quando vemos...
Quebrou...
E um
último suspiro foi dado sem que ninguém ouvisse.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Vazios enlatados
Mais uma vez, apelei para o verde, por dentro e por fora,
mas, às vezes, a vida joga contra e aquele buraco, aquele vazio que, infelizmente,
não pode ser preenchido com gim, reaparece... Às vezes acho que ele nunca sumiu
de verdade, só se esconde de quando em vez, esperando o melhor momento para
voltar a apertar. Muitas bolas fora, muitas cartas sem baralho e eu no meio
disso tudo com um coringa na mão sem saber o que fazer. Deveria ser fácil...
E
eu continuo respirando em meio às trincheiras da minha cabeça. Tudo parece tão
claro e breve e eu sequer consigo tocar... É isso. Tem tanto tempo que eu não
toco nada de verdade, tem tanto tempo que nada me toca de verdade.
Migalhas de prazeres enlatados, de dias mal dormidos, de palavras não ditas... Nunca ditas. E, por fim, volto a isso que chamam de sanidade, de lucidez.
Migalhas de prazeres enlatados, de dias mal dormidos, de palavras não ditas... Nunca ditas. E, por fim, volto a isso que chamam de sanidade, de lucidez.
Guardo todos os
meus fantasmas num pote de Hellmann's e finjo que está tudo bem. Como sempre
esteve. E continuamos fingindo, você, a sua paz, sem deixar ninguém chegar
perto, eu, a minha loucura, sem que ninguém queira chegar perto. Ambos
intocados, ambos intocáveis, ambos vazios e escuros, sem que ninguém chegue
perto.
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Memórias
Pensando na véia, botei Alcione, passei
por Bethânia e Gonzaguinha, acabou surgindo do nada, deu
aquele aperto no peito... Lembrei das nossas conversas, das nossas noites
insones na frente da TV, com aquele cafuné displicente.
Pensei em todas as coisas que eu gostaria de ter dito e, por
displicência, acabei por não dizer; pensei que, por displicência, aquele cafuné
sempre estaria ali, displicentemente. Aquela mão quase involuntária, mas que
sempre soube chegar na hora exata, precisa, sempre um segundo antes do
desespero, um segundo antes de tudo desmoronar. As unhas impecáveis,
o cabelo arrumado e a eterna certeza de que: "Se há jeito para tudo
nessa vida, exceto para morte".
De ti ficou o bom gosto para tudo que há de bom, a vontade de
viver, a certeza de que as coisas sempre podem piorar, portanto, é melhor fazer
por onde. E a inegável necessidade de se lutar por aquilo que se
quer de verdade, mesmo que você não saiba direito o que é isso.
De ti ficaram as conversas francas, as birras, o cheiro de
feijoada, a inesquecível moqueca de arraia, o som alto na vitrola, a cerveja
gelada no domingo, a vontade de conhecer tudo que tiver ao meu alcance e
esticar o braço um pouquinho mais para tentar abraçar o mundo e, se, por
ventura, não conseguir, não tem problema, sempre se pode tentar de novo.
Algumas noites insones serão sempre mais difíceis... Aquele
displicente cafuné já não está mais lá, não há mais necessidade de se
provar quem está certo. Todos nós estivemos redondamente enganados por todo o
tempo. Não, não poderemos ser felizes juntos, não aqui, não agora, não nessa
vida...
Juntos jogamos contra!
Esse Happy Ending do sonho americano está longe, muito
longe de ser a nossa verdade. Não, na sua verdade você teve o seu Happy Ending,
não o dos filmes, mas o real, o que fazia cada dia ser de alguma forma um pouco
"menos pior". Que fez com que tudo à sua volta fosse tão
inesquecível. Não, não estamos falando de perfeição. Estamos sem sombra de
dúvida falando de coragem, da coragem de alguém que nunca teve medo de se
expor, que nunca fingiu ser quem não era. Alguém que acabou por abandonar as
máscaras, mesmo que isso significasse usar a mesma todos os dias.
Estamos falando de alguém que sobretudo continuou. Continuou,
contra tudo e contra todos. Alguém que não teve medo de encarar a vida de
frente, olhar nos olhos do furacão e ir preparar o almoço, porque, acima de
tudo, as pessoas precisam comer.
Não, nem todas as lembranças são azuis e felizes, porque nem
tudo é azul e feliz, mas uma imagem de tudo acaba por se fazer muito clara: a
imagem de uma guerreira que fez a todo momento o que foi preciso ser
feito.
Agora, me perco entre os vinis, entre
os inúmeros sons da minha memória. Consigo
facilmente passear de Stravinsky a Roberto Carlos sem grandes
percalços. Por fim, chegamos a mais um começo, só que, agora, sem
displicências, sem falsas sensações de eternidade, de constante. Só nos resta o
momento que acabou de passar.
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Continue respirando... Só continue respirando...
O ar vai começar a faltar, aos poucos sua vista vai ficar turva e você vai descobrir que tudo aquilo que te contaram sobre luz, túnel e flashs não passaram de histórias infantis.
Mas tente, você sempre foi bom nisso, tentar... Tentar, tentar e morrer na praia. Agora vai ser literal, exceto pela praia.
Não precisa alardear, ninguém vai ouvir, poupe seus esforços para a única ação que pode fazer alguma diferença.
Continue respirando...
Continue respirando...
Suspensão...
Aquele dia eu pus o pé na estrada e continuei andando,
naquele dia eu não olhei para trás.Nada mais importava, todas as expectativas, todos os
momentos, todas as dores, todas as angustias... tudo, tudo misturado.
Como se não fosse nada, como se fosse só uma virgula, um
momento, aquele caminho que continuou a partir dali, aquele caminho que
finalmente começou... Engraçado perceber como era fácil. Como sempre foi fácil.
Agora de frente para uma estrada sem grandes curvas e sem ser uma linha reta
também. Eu continuo andando... Agora eu não tenho mais medo, agora eu perdi o medo de caminhar,
perdi o medo de correr. Agora, eu perdi o medo de se por acaso eu encontrar um
espelho no meio do caminho e ter que me encarar de frente. Porque o agora é o único
momento que importa. Eu vim correndo todo esse tempo desesperada, desenfreada,
correndo como se soubesse para onde eu ia, mas eu não sabia. Eu vim procurando
algo que não estava dentro de mim, eu vim procurando algo que eu só saberia
quando eu encontrasse... E finalmente eu encontrei, eu me encontrei, eu
encontrei um lugar, eu encontrei um porquê. Eu encontrei tudo aquilo que eu vinha
perdendo sem sequer saber que eu tinha. Engraçado olhar para tudo isso e ver o
quanto as coisas podem ser fáceis e simples. E fácil e simples não significa
que vai dar certo, fácil e simples significa que a gente vai ter que arriscar
sim, e que pode doer que vai ser difícil que talvez a gente caia, mas a vida é assim. Que são esses momentos e são essas
curvas essas quedas essas pequenas e grandes feridas que fazem todo o resto valer a pena... E tem valido.Cada respiração, cada sentimento, cada dor tem valido a pena
porque agora eu sei que eu estou fazendo por mim. Porque agora não importa o que eu
faça eu não estou apenas caminhando... finalmente eu estou seguindo.
domingo, 5 de janeiro de 2014
Última moeda
No primeiro dia existia uma parede invisível, mas não imaginária,
nos separando. Tentei desesperadamente transpô-la, bati com toda minha força,
gritei inutilmente, mas nada adiantou. Ela me olhava serena, pedia que eu me
acalma-se, entretanto isso era impossível, ela estava ali na minha frente e eu
sequer podia tocá-la. Gritei, continuei a esmurrar aquele muro até minhas mãos
sangrarem. E ela continuou ali parada com o seu olhar sereno pedindo para que
eu me acalma-se. No segundo dia ela apareceu de branco, era festa do mar, todos
jogavam suas moedas, suas rosas brancas, não existiam mais barreiras. Ela
chegou perto, pediu para que eu ficasse bem, me deu uma moeda e se foi.
Prontamente eu joguei minha moeda no mar e fiz um pedido: Volta! O mar
esbravejou, Iemanjá entendera, mas não tinha como conceder, era grande demais até
para ela. Assim como a minha moeda, ela se fora, afundou pouco a pouco e desde
então eu nunca mais joguei uma moeda ao mar.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Respirei fundo muitas vezes tentando procurar uma saída, mas sequer
consegui me mexer. Tudo ainda está muito confuso e a única coisa que eu tenho
certeza é que absolutamente tudo mudou. Queria acordar disso que eventualmente
chamamos de pesadelo e percebo que isso é a minha realidade. Com os meus olhos
míopes e cansados só consigo enxergar linhas turvas e muito pouco a fazer.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Abri mão do verde, ele acabou por não ajudar em nada...
Simbolismos, simbolismos. Acabei por encarar o preto de frente bem nos olhos e
nas unhas. Quem quiser que diga que é luto. Talvez seja... Por que não? Um luto
bem servido, com enterro, missa, lágrimas e esquecimento (esse pode até tardar,
mas nunca falta). Tudo como de praxe, sem muita cerimônia, só aquela certeza
pura e simples de que acabou. Como tudo acaba, as plantas, os bichos, as
pessoas e os sentimentos, cada um ao seu modo. É verdade, todos acabam, ou se
transformam. Talvez seja isso que nos mantenha vivos, a certeza de que as
coisas se transformam, sem saber exatamente em quê, nem quando, nem onde. E
elas vão mudando, tornando-se ora melhores, ora piores e se alternando
mutuamente.
Estamos todos na beira de alguma coisa, não o abismo clichê,
mas todo mundo está na beirada, buscando algo novo, um sentimento novo, uma
pessoa nova. Eu gosto das coisas velhas, sempre gostei, sempre fui meio
velhinha, acordando cedo, sentindo cheirinho de café no fogo, cumprindo sempre
os mesmos hábitos, saudáveis ou não, mas sempre os mesmos. Talvez por gostar
tanto de manter os velhos hábitos é que as coisas sejam tão inconstantes pra
mim e paradoxalmente eu seja tão volúvel. Mudando de ares, pessoas e
sentimentos como quem troca a cor das unhas. Ontem verde-esperança, hoje
preto-luto e amanhã, quem sabe, acho alguma mais feliz, um pink ou um anil.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Arrumei a casa, lavei a
louça bati um bolo. Preenchi o meu tempo e a dor não passou. Percebi que o que
faltava preencher era espaço e não tempo.
Esse é mais complicado, mais de-li-ca-do como uma boneca de porcelana,
que, ao se quebrar, por mais que se emende, sempre ficarão cicatrizes. Queria
uma cicatriz agora, queria um sentido, algo que valesse a pena, algo no que
acreditar, mas tudo perdeu o sentido, se sentido houve algum dia. Continuar se
tornou uma palavra vazia e por mais sinônimos que eu invente não consigo
trazê-la de volta.
Vou falando, repetindo,
criando vícios, lavo, passo, limpo, faço as unhas o cabelo e tudo continua
igual. Tento ler um livro, assistir a um filme, rir alto de qualquer coisa, mas
tudo continua igual. Os truques antigos que antes eram tão eficazes já não têm
significado nenhum. Os versos que antes tanto me distraiam, hoje são palavras
cada vez mais vazias. Pintei as unhas de verde (esperança, pensei), vai ver
representa alguma coisa. E no meio do turbilhão também conhecido como o olho do
furacão, tudo para. A vida para e, no silêncio, tento escutar a lembrança de
quem eu fui um dia. Ideais, causas, motivos para lutar por algo maior, mas o
sentido se perdeu com o tempo e, pragmática e positiva continuo andando, com as
unhas pintadas de verde na esperança de ter esperança de novo algum dia, se é
que algum dia houve.
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Rubra? Porque não?!
Assim, sem querer, te tornei especial, sim, eu te tornei. Pois, somos nós que tornamos o outro. Vemos no outro aquilo que queremos ver. Te vi assim, especial. Quis voltar atrás, tornar as coisas menos belas e menos fortes, mas já era tarde. Aquilo, que antes parecia indecifrável, tomou tanto espaço que se tornou inaprisionável e, saindo de um extremo a outro, me atordoou. Parei no meio da estrada, sem bússola, sem mapa, sem norte... Apenas com um reflexo do que eu imagino que seja isso, que não tem nome, mas ocupa tanto espaço que, em meio ao sentido absoluto, não faz sentido algum. Imersa nesse caleidoscópio de informações desencontradas, vejo aquele papel amarelado e me lembro das cartas que pensei em escrever. Mas não se escreve mais cartas... Mesmo assim, olhando para aquele papel amarelado, lembro daquele pôr-do-sol, em algum lugar lá atrás ou lá na frente, não sei ao certo, mas aquele pôr-do-sol onde os olhos voltaram a ver e, quem sabe, tudo voltaria a ser belo novamente, ou voltará... Mas não dá mais tempo e tenho novamente que esperar, esperar por você, por mim, pelo encontro ou, simplesmente, pela espera.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
De repente, meio sem querer, enquanto você dormia, ele voltou... Sempre forte e inusitado. Não sei se é sadismo querer que ele continue... Não consigo abrir mão. Sei que não te faz bem, sei que não me faz bem, mas, como desistir dele, também não sei. Queria te ver assim, forte e livre e ter certeza que sempre vai ser assim. Ele volta pra me dizer que não, que as coisas nem sempre serão assim, que nem sempre seremos livres e fortes. E que, ao fraquejar, seremos ainda mais presos e ainda mais tristes. Você quis ir, não entendi como era possível, então você disse que continuaria, sem atrasos, sem me atrasar. Mas por que sempre o tempo? “O tempo é relativo”, todo mundo diz, porém, na prática, tudo gira em torno dele. Eu espero, disse sem medo, mas não, ele já tinha ido apressado sem me dar escolha, e nessa hora o tempo só ajudou a doer mais, a ficar mais triste e mais duro. Só queria ter podido escolher, afinal, era um direito meu que me foi usurpado. Lembro-me de você sorrindo e, mesmo de longe, consigo ver. Não sei se você se lembra do meu, mas, definitivamente, você não pode mais ver.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Como algo pode ser mais real que a realidade? Perguntei-me isso enquanto desciam lágrimas vertiginosas pela minha face. No início fiquei meio desconcertada, me senti te invadindo, depois, perdi o controle, precisava saber mais, ver mais, viver mais. Eu sei, o sonho não era meu. Mas como controlar algo que me invadiu sem pedir licença? Quando percebi já estava sonhando com você. Algo sem controle, mas repleto de sentidos, uma realidade avessa, triste, mas uma realidade viva e, acima de tudo, intensa. Corpos que se tocam sem se ver, cicatrizes, lembranças... E um achado. Está tão difícil achar hoje em dia... Uma causa, uma promessa, uma força... Qualquer coisa no que se apoiar, qualquer coisa pela qual valha a pena viver, qualquer coisa pela qual valha a pena morrer. Eu achei. Ela me sorriu, apertando seus olhinhos azuis. E foi a última vez que eu enxerguei seus belos olhos azuis. Eu achei.
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Penteadeira, batom púrpura, luz flamejante e a incrível sensação de se ver.
Enxergar o passado, o presente e rememorar cada segundo de existência numa fração de tempo menor que o pensamento.
Passar o batom, o pó, colocar a ruga falsa e a falsidade do corpo e, a todo o momento, ter consciência plena de estar apenas representando.
Ela se via e se ouvia, antes mesmo do público notar a sua existência. Luz rubra, quarto escuro, pele envelhecida, mãos macias e enrugadas pelo tempo que, pouco a pouco foi deixando de passar.
Suor? Lágrimas? Desejo?
Apenas a força de um indivíduo que luta, luta e continua se vendo, correndo entre a infância e a juventude. Faces da mesma moeda?
Luz incandescente se acende, porta se abre e ela continua esperando a entrada do infinito, do vazio. Luz se apaga, novamente ela se olha no espelho e diagnostica sua doença sangrenta, inalcançável e repetidamente tediosa. Havia envelhecido.
Levanta bruscamente, dança um tango com um parceiro imaginário, finaliza sua grandiosa performance, agradece ao público.
Ausenta-se.
O palco livre representa aquilo que ela sempre desejou ser: apenas uma luz no meio do caminho que leva a lugar nenhum.
Sombras entrecortadas de luxo e uma imensa tela de cinema que aos poucos vai se apagando.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Tudo estava escuro, era uma espécie de shopping abandonado, mas, para minha surpresa, ele não estava tão abandonado assim. Éramos cinco, um pequeno grupo com inúmeros defeitos e uma única vontade em comum: continuar vivos. Como fomos parar justamente ali, com tanto lugar no mundo para se esconder? Em meio à escuridão descobrimos sombras famintas por sangue, carne, ossos. Nada seria desperdiçado na boca daquelas feras. Um som quase surdo deu inicio ao ataque. Graças a um dos nossos, ficamos de sobreaviso e isso foi o que nos salvou, pelo menos a princípio. Mas o que era aquilo que atacava sem medo? Em breve eu descobriria. Uma das feras sedenta por comida veio ao meu encontro e nesse momento eu não tinha mais dúvidas de que o lanche era eu. Vi em seus olhos a vontade de saciar um desejo, o desejo primário que rege qualquer ser, humano ou não, a necessidade mais básica e primitiva: a fome. Mas por que justamente eu tinha que ser o lanchinho daquele bicho? Ele não poderia simplesmente se alimentar de maçãs? Entretanto, se eu não corresse o mais rápido que conseguisse, provavelmente não sairia dali com vida. Corremos como uma presa que luta incansavelmente pela vida e, por vários momentos, achamos que não iríamos conseguir. Por fim, chegamos a uma escada, que levava para liberdade, pensávamos nós. À medida que descíamos os degraus ouvíamos o som de uma garoa fina e um barulho que parecia uma multidão, algo que nós nem sequer sonhávamos o que poderia ser. Chegamos enfim à liberdade, deixamos a fera para trás, mas, ao sairmos do shopping, vimos uma verdadeira multidão vinda de encontro a ele. De início não entendemos bem o que aquilo significava até olharmos para os rostos transfigurados, as pessoas queimando. Aquela garoa fina que inicialmente achávamos que iria lavar as nossas almas era na verdade um tipo de chuva ácida e o único abrigo naquele momento era a toca das feras.
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